I Encontro Da Diversidade Humana Com Cristo

terça-feira, 20 de setembro de 2016

TEOLOGIA TRANS DE JESUS CRISTO (PARTE 2)

 
Jesus sobre os três tipos de eunucos
A passagem chave que muitas pessoas trans usam para compreender sua relação com as escrituras é Mateus 19:11-12:
"Mas ele [Jesus] disse-lhes [aos discípulos]: Nem todos podem receber esta palavra, mas apenas aqueles a quem é dado. Porque há eunucos que são assim desde seu nascimento, e há aqueles que foram castrados pelos homens; e há os que se fizeram eunucos por amor do reino dos céus. Aquele que tem ouvido para ouvir, ouça".
Os que já nasceram trans, não têm a opção de ser cisgênero, apenas a opção entre ser abertamente trans, tentando fazer o melhor para ser feliz, ou repreender sua transexualidade, tentando fingir ser cis. Sim, o próprio Jesus afirmou tal questão: "há eunucos que são assim desde seu nascimento..." Sendo esse o caso, a transição é apenas um processo de tornar manifesto o que já faz parte da pessoa desde seu nascimento. Mas, ainda mais tentador é Jesus afirmar que algumas pessoas se fazem eunucos por causa do reino dos céus. Neste caso, a transição pode ser uma resposta apropriada para sua própria participação no reino dos céus, ou para suas tentativas de ser um/uma membro apropriado/apropriada do reino dos céus. Tornando-se um/uma eunuco, não é apenas não-vergonhoso e permitido, mas pode ser uma coisa positiva realizada pela razão certa de ser ativamente agradável a Deus. Pelo menos é o que Jesus diz.

Porém, essa passagem tem rodado de diferentes maneiras por diferentes pessoas. O contexto imediato anterior é uma pergunta dos fariseus sobre casamento e divórcio e dos discípulos perguntando se devem evitar o completamente o casamento. Assim, muitos (especialmente católicos), interpretam isso como uma discussão sobre o celibato dos padres, e, o processo de se tornar "eunuco para o reino de Deus" é muitas vezes entendido ao lado do comentário de Paulo sobre o casamento (1 Coríntios 7). Mas mesmo que este seja um dos entendimentos desta passagem, não existe nenhuma razão para não pensar que Jesus também estivesse falando sobre a natureza e o papel social dos eunucos. É muito difícil ler esta passagem sem pensar nas ideias bíblicas mais amplas do comportamento LGBT. Aqui, Jesus está falando especificamente aos discípulos (não aos fariseus), que tinham se tornado alvos certos da malha do povo, pois viajavam, todos solteiros e, certamente levantavam suspeitas em seu tempo. Nenhum dos discípulos parece ter tido filhos, e, só Pedro é registrado como tendo sido casado (e mesmo esse parece que já estava viúvo quando encontrou com Jesus, e nunca se casou novamente). Mas, mesmo sendo esse um dos tons desta passagem, ela parece mais, ser sobre eunucos reais, em vez de apenas pessoas que possam ser confundidas com eunucos. Não há evidências de nenhum dos discípulos ter sido identificado publicamente como eunuco durante sua vida, apesar de existir registros dos pais da igreja os chamando de eunucos mais tarde. Certamente alguns cristãos também confundiram Jesus com um eunuco. Note também, que o resto de Mateus 19 é sobre a boa vida cristã e sobre um jovem que está sendo tentado a juntar-se ao bando de Jesus, mas decide não fazer para voltar a sua vida normal e familiar. Podemos interpretar está a luz do que vem imediatamente após, tanto a luz do que vem imediatamente antes.
Jesus e o Transportador de Cântaro
Outro conjunto de passagens que revela atitudes de Jesus para com as pessoas trans ou não conformes com seu gênero, é a história do transportador de água, imediatamente antes da Última Ceia, em Mateus 26:17-19; Marcos 14:12-16 e Lucas 22:7-13. Detalharei mais essa história em outra publicação. Para entender a história você precisa muito do fundo cultural. É o dia dos pães ázimo, o dia chave da Páscoa. Esse é o maior feriado judaico do ano, uma época em que todos e todas na Judéia devem visitar Jerusalém, e cada família deve consagrar um cordeiro em sacrifício no Templo, e depois comê-los juntos à noite, em um grande jantar familiar. Neste período, a cidade ficava repleta de pessoas, e todos que podiam, e se preocupavam com a tradição, se reuniam com os familiares. Mas os discípulos não estão com suas famílias, eles estão com Jesus. Eles perguntam ao mestre se estão indo celebrar a Páscoa juntos, e em caso afirmativo, onde e como? (Nesse momento, eles já estão no final de sua jornada). Jesus manda-os ao encontro de "um homem carregando um cântaro de água (Mateus é mais ambíguo). Como eles encontrariam um homem levando um cântaro de água em uma Jerusalém cheia? Não é lá que estão milhares de homens preparando uma festa com seus familiares? Bem, na verdade, não. Na cultura judaica da época, apenas mulheres carregavam cântaros de água. Os homens às vezes carregavam cantinas ou odres, especialmente quando viajavam, mas os grandes jarros de água utilizados para o fornecimento de uma casa com água de poço, era um trabalho extremamente feminino. Qualquer homem que levasse em público cântaros de água, ou era: a) um homem fazendo seu melhor para viver como mulher na sociedade; b) ou não havia nenhuma mulher naquela casa e o homem não se importava de fazer o papel feminino em público. Mas Mateus, usa uma estranha construção para tentar evitar dizer o gênero dessa pessoa (chamando de "um certo alguém", DEINA. Essa é a única vez que essa frase é usada no Novo Testamento), o que, nos faz inclinar-nos para primeira interpretação. 

De qualquer modo, a transportadora (prefiro chamá-la assim) de cântaro leva os discípulos a uma casa onde vive com um "mestre de família", que os acolhe e proporciona-lhes uma sala superior para preparação da Páscoa. Tudo bem, isso foi muito rápido, mas nos aprofundemos. Por que esta casa não está cheia com seus familiares? Talvez nem a Transportadora de cântaro, nem o mestre da casa tenham familiares vivos (exceto, talvez, um ou outro). Ou talvez suas famílias sejam afastadas deles. De qualquer forma, eles não tinham ido jantar com seus familiares, e nem suas famílias vieram ter com eles para a Páscoa. Além disso, Jesus parece saber perfeitamente que o dono da casa irá acolhê-lo, junto com seus 12 discípulos, para uma enorme refeição, mesmo no último minuto. Além disso, Jesus espera que o dono da casa tenha espaço para eles. Jesus sabe que o dono da casa e a Transportadora de cântaro não terão familiares presentes. É provável, que eles tenham sido rejeitados por suas famílias, e por isso, tenham espaço suficiente para Jesus e seus discípulos. Além disso, por que Jesus não os levou para casa de Maria, sua mãe (e de seus irmãos, ou meio irmãos, dependendo de sua interpretação), em vez da casa daquele desconhecido? Jesus escolhe simbolicamente a casa da Transportadora de cântaro e do mestre da casa para dizer que essa é sua verdadeira família, e não Maria e seus irmãos. E, este é o tema que percorre todo o Novo Testamento (incluindo Mateus 19).

Mais uma vez, permita que isso flua em sua mente. Jesus conhece uma pessoa que parece ser homem para alguns escritores, mas, que atua publicamente como mulher, e, conta com essa pessoa para tratá-los como se fossem seus familiares próximos, juntamente com seus discípulos. A Transportadora de cântaro e o mestre de família iam preparar uma festa para dois, mas para ajudar Jesus e seus discípulos, preparam uma festa para quinze em um único dia. Imagine que no natal, você e seu parceiro não são bem-vindos na casa de seus familiares, e que, eles também não estão dispostos a vir à sua casa, talvez por causa de seu estilo de vida incomum. E, em seguida, um pouco antes da refeição, um estudante, mandado por seu mestre diz: Pode treze pessoas almoçar em sua casa, para celebrar o feriado nesta noite? Falando com uma dona de casa trans, acho absolutamente anormal. Mas eles respondem sim, e abrem sua casa com um feito épico de hospitalidade. E em vez de uma refeição para dois em uma casa vazia, agora são parte de uma grande refeição de uma "família escolhida". E, de fato, está refeição torna-se tão famosa que milênios mais tarde, ela é lembrada ritualmente, repetidas vezes por muitas pessoas ao redor do mundo.

Hoje, quando pensamos na atitude cristã adequada daquela pessoa trans, percebemos com toda probabilidade, que uma trans e seu parceiro, alojaram e fizeram parte da última ceia, juntamente com Jesus e seus discípulos. E Jesus não reclamou nem um pouco disso. A maioria das pinturas da Última Ceia, não incluem a Transportadora de cântaro e seu companheiro, mas provavelmente ela estava lá.

Fonte: Estudos do Rev. Cindi Knox (homem trans).

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

TEOLOGIA TRANS (PARTE 1)

 
"Precisamos de um Deus-trans... que transgrida todas as nossas ideias sobre quem é, o que é e o que possa ser Deus, que nos transporte para novas possibilidades de como Deus pode encarnar a multiplicidade das formas das realizações humanas, que transfigure nossas imagens mentais de limitações, que transforme as nossas ideias sobre nossos companheiros seres humanos e sobre nós, que transcenda tudo o que sabemos ou pensamos saber sobre Deus e sobre a humanidade como IMAGO DEI". BK Hipsher

O que os cristãos devem saber sobre as pessoas travestis e transexuais? Que tipo de apoio encontramos nas várias posições da Bíblia? Como as histórias bíblicas podem laçar luz sobre a vida das pessoas trans? Talvez você, que é um/uma ministro/ministra de congregação, que tenha um amigo ou amiga trans, que tenha um filho ou filha trans queira conversar sobre o assunto. Ou talvez você seja uma pessoa trans e quer saber como o cristianismo pode lhe dar apoio. Cremos que as denominações cristãs devam apoiar as transições das pessoas trans, se esse for seu desejo. Mostrarei os principais argumentos cristãos favoráveis a aceitação das pessoas trans e, discutirei também a posição assumida por algumas denominações atualmente.

Minha experiência mostra que as questões teológicas em torno da identidade trans sejam realmente bastante diferentes das reflexões cristãs sobre lésbicas, gays e bissexuais, onde existe uma gama de discussão em diversos lugares. Vemos muitos pastores e pastoras discutirem sobre as questões bíblicas referentes as pessoas LGB, mas quase nenhum/nenhuma está familiarizado/familiarizada com as discussões e passagens bíblicas que dizem respeito a população T. Estamos focando nas pessoas trans, mas existem textos relevantes sobre pessoas não-binárias ou pessoas de gêneros fluidos. Parto do pressuposto que você já esteja familiarizado com os conceitos básicos do que seja pessoas travestis e transexuais, caso não, procure estudar tais conceitos.
ARGUMENTOS A FAVOR DAS IDENTIDADES TRANS
Argumentos do amor cristão em geral, ou inclusão, ou a valorização da diversidade, etc.

Provavelmente os argumentos mais comuns para o apoio cristão às pessoas trans seja o de enxergá-las como exemplo de um princípio mais amplo sobre o amor cristão, ou inclusão, ou uma valorização geral da diversidade. Muitas teologias pregam sobre o valor da criação de Deus. É comum salientar que Jesus intencionalmente interagiu e defendeu uma variedade de tipos de párias sociais: cobradores de impostos, prostitutas, samaritanos, pobres pescadores, leprosos, etc. Da mesma forma pode-se apontar uma injunção bíblica especial para ajudar pessoas que precisavam de ajuda, e as pessoas trans parecem precisar de ajuda em uma variedade de medidas. As Igrejas da Comunidade Metropolitana celebram as identidades trans e colocam tal experiência como parte do confiar na sabedoria de Deus "criatividade diversificada de Deus".
"Nós achamos que reivindicando nossa plena sexualidade nos tornamos um alegre ato da obediência e confiança na sabedoria de nosso Criador. Quando confiamos a expressão de nossa identidade sexual em um relacionamento amoroso e justo, nossa dependência e compromisso com a vontade de Deus é revelada e aprofundada. Se o fizermos, obrigamo-nos a uma busca sincera e continua em um caminho para Deus, nesta área mais íntima e indefesa de nossas vidas. As variedades resultantes de relacionamentos e identidade de gênero, em sua gama complexa, responsável, rica e surpreendente, são um lembrete permanente, que o plano de Deus está além da compreensão humana".
As igrejas que praticam uma comunhão aberta (incluindo muitas denominações protestantes), muitas vezes veem isso como uma extensão de um dever da igreja de ministrar a todas pessoas que estão dispostas a ser ministradas, mesmo os pecadores e, mesmo desaprovando as pessoas travestis e transexuais, consideram um dever cristão apoiá-las de várias maneiras. Existem muitas maneiras de obter argumentos para se trabalhar desta forma, e, até mesmo as tradições que se opõem as identidades trans em alguns aspectos, precisam dos outros para apoiá-los, a fim de serem coerentes com seu próprio entendimento da mensagem de Cristo.
Os "eunucos", foram parte integrante da sociedade nos tempos bíblicos, e não foram rejeitados nem pelos judeus, nem pelos cristãos
Por que devemos esperar que a Bíblia fale sobre as pessoas travestis e transexuais em todo seu contexto? Todos os dois termos são recentes, certo? Cirurgias de redesignação sexual e terapia de reposição hormonal moderna foram desenvolvidas por volta do século 20. Ser travesti ou transexual é uma coisa bastante recente, certo? Não. Nem um pouco. Nosso pensamento atual sobre travestis e transexuais e nossas técnicas médicas para auxiliar a transição são ambas muito recentes, mas as pessoas trans deram o melhor de si para viverem sua vida, em praticamente todas as culturas, presente em toda história registrada. Olhe isto deste modo, a palavra "homossexual", foi cunhada em 1896, nossa forma atual de pensar sobre homossexualidade é bastante recente, mas existiram pessoas que hoje teriam sido chamadas de homossexuais em cada cultura há milênios, porém, elas foram categorizadas de outras maneiras anteriormente. Isso é tão verdadeiro para as identidades de gênero, como é para as sexualidades homo e bi.

Ambas são registradas na Bíblia, mas, com o nome de "saris" (pl. Sarissim), em hebraico e aramaico, e "eunouchos", em grego, geralmente traduzida para "eunuco" em português. Mas "eunuco" no hebraico, aramaico, grego e na cultura romana não tinha exatamente o mesmo significado que tem no português. Por exemplo, não implicava ou exigia que a pessoa fosse castrada. Pessoas castradas são um dos vários tipos de eunucos, no latim, grego, hebraico e aramaico, uma pessoa pode ser castrada sem ser saris, ou ser uma saris sem ser castrada. Deuteronômio 23:1 usa termos diferentes para falar sobre as pessoas castradas e as com testículos esmagados. Eunouchos e saris são ambas grandes categorias projetadas para incluir lotes de diferentes tipos de pessoas que não são homens ou ex-homens, nem exatamente femininos também. Alguém nascido intersex, ou nascido do sexo masculino, mas que vivia publicamente fora das normas de masculinidade, ou alguém que queria concentrar sua vida a serviço de um rei em vez de criar uma família, ou mesmo alguém que fosse castrado, ou ainda alguém feito para viver uma vida de um terceiro sexo fazia parte desse código de eunucos do mundo antigo. Um homem que se encontrava infértil ou impotente, ou apenas impotente para com as mulheres, podia ser identificado como eunuco pelos outros, e tanto podiam concordar que eram, como podiam negar, e afirmar que eram do sexo masculino, apesar disso. Eunucos frequentemente usavam roupas do sexo feminino, ou, nas versões femininas, roupas masculinas. Eunucos eram casados. Sarissim, em particular, era associado fortemente ao serviço oficial dos palácios, e não tinham filhos. Na cultura greco-romana um homem que preferia dormir com homens, mas que se encontrava disposto e capaz a se casar e dormir com mulheres e ter filhos, era considerado dentro dos limites da normalidade, um homem que não estava disposto ou mesmo fosse incapaz de se casar com mulheres ou ser pai, era considerado um eunuco, e não um homem. É possível que os sarissim fossem trabalhados desta forma também. Uma série de estudiosos acreditam que muitas pessoas que hoje são consideradas gay, teriam sido codificadas como eunucos no antigo Israel. Romanos e Gregos descreviam eunucos como "um terceiro gênero do ser humano", como "terceiro sexo", e como "gênero do meio".

Saris e eunouchos também foram usados para traduzir identidades desconhecidas de gênero em outras culturas próximas, dos quais haviam muitos. Potifar, egípcio, (proprietário de José em Gênesis 39), era um e, provavelmente um "Sequet" (terceiro gênero, além de masculino e feminino no antigo entendimento egípcio). Mas, isso é traduzido como saris em hebraico. A erudição moderna ainda está lutando para entender o sentido de uma gama de identidades não-padrão de gênero entre os sumérios, acádios, assírios e babilônicos como "aqueles que estão diante do rei", "a terceira categoria de pessoas", ur-sal, ou Kur-ga-ra, sag-ur-sag, assinu, keleb, kulu'u, sinnisanu, entre outras. Parece que essas pessoas faziam distinção entre os ricos dos palácios e os servos de gênero queer, prostitutos sagrados, gênero fluido, homens que viviam com mulheres, homens-mulheres, homossexuais efeminados, e muitos outros. O que está nítido é que haviam muitas possibilidades de identidades de gênero não-padrão na Mesopotâmia, mas o único termo em hebraico que traduz tudo isso é saris (e ay'loint, do aramaico pode preservar algumas das distinções assírias. E temos m'hay-min, gwar-Ni-SHA-ya entre outras, para além da forma de saris). A Frígia (Phyrigians) teve os Galli, que continuou e se espalhou após sua queda, alguns dos entendimentos de gênero Galli se espalharam e provavelmente influenciaram os entendimentos mais Helênicos de Hermafrodita (Hermaphroditus), andróginos e eunucos.

Tudo bem, mas o ponto é que sarissim e eunucos são frequentemente mencionados na Bíblia, e são aceitos, de modo geral, sem comentário, hostilidades ou oposição. A Bíblia não contém condenações para eunucos, ou apelos para não deixar suas crianças virarem eunucos quando crescerem, ou dar a entender que ser eunuco era um castigo de Deus ou uma rebelião contra o plano dele. Muitos eunucos podem ter sido excluídos da casa do Senhor, mas em uma passagem mais adiante, em Isaías 56:4-5 diz: "Porque assim diz o Senhor a respeito dos eunucos, que guardam meus sábados, que escolhem coisas que me agradam e abraçam minha aliança: Darei na minha casa, dentro de meus muros, um lugar e um nome, melhor do que filhos e filhas; darei um nome eterno que nunca será apagado". Talvez Isaías tente rever e atualizar Deuteronômio, mas também é possível que os eunucos tenham um papel liminar entre os antigos hebreus, onde eram excluídos da casa de Deus, mas ainda considerados de alguma forma valiosos como membros da comunidade. A Bíblia tem muitos exemplos de eunucos que são retratados de forma basicamente favoráveis, Potifer, Aspenaz, Ebede-Meleque, um funcionário etíope sem nome que interage com Filipe, etc.

É importante ressaltar que não há registro nem de Jesus, nem dos discípulos tentando curar um eunuco. Por que não? Leprosos também eram excluídos, e um dos principais objetivos de Jesus era o de cura, incluindo os leprosos. (Marcos 1:40-45; Mateus 8:2-4; Lucas 5:12-16). Então, por que Jesus não curou eunucos castrados também, e os restaurou para sua casa? Bem, uma razão é uma citação que veremos mais à frente, outra razão possível é que simplesmente Jesus não via eunucos como tendo necessidades de cura, não tem nada de errado com eles, não são impuros, especialmente se a pessoa escolheu esse caminho. Os eunucos não vinham para cima dele pedindo cura, mesmo quando ele se tornou famoso por suas curas milagrosas.

Hoje, a maioria das pessoas trans no Brasil não se veem como eunucos, elas pensam em si mesmas como homens ou mulheres. Alguns de nós, se consideram não-binários ou gênero fluído, terceiro sexo ou algo assim. Em nossos tempos, alguém poderia imaginar como era ser uma mulher trans presa no mundo antigo, sem acesso a bloqueadores de testosterona, estrogênio ou mesmo a vaginoplastia moderna? Talvez o esmagamento ou remoção dos testículos e até mesmo remoção do pênis seria a forma de eliminar a produção de testosterona, e, talvez a forma de lhe dar com sua transexualidade. Em sentido real, era a melhor maneira que se tinha na tecnologia da época. Muitas pessoas que hoje são mulheres trans, provavelmente teriam sido eunucos nos tempos bíblicos. O importante é olhar firme para os eunucos mostrados nos tempos bíblicos e pensar sobre identidade de gênero das pessoas mais vulneráveis e, sobre a distante transição entre o nascimento e sua identidade. A Bíblia pode não ser capaz de ajudar com questões chaves, com a eficácia que nossa tecnologia atual ajuda em uma transição, mas, pelo menos, mostra nitidamente a atitude de que não há nada de vergonhoso, impuro ou contrário aos planos e metas de Deus se afastar do sexo atribuído ao nascer.

Continua...

Fonte: Estudos do Rev. Cindi Knox (homem trans). 

sábado, 10 de setembro de 2016

DIALÉTICA DA RECONCILIAÇÃO


Paulo foi um ótimo professor dialético. A palavra dialética originalmente se referia a arte grega do debate. A dialética (diferente de nossos debates políticos) não se move nas duas maneiras de si pensar. É quando você joga dois pensamentos fora, e, em seguida, chega a um tertium quid, uma terceira coisa, o que as tradições de sabedoria interior chamam de "Terceira Força". É o processo de superação de aparentes opostos, descobrindo uma terceira reconciliação, que é maior que ambas as partes, e, que não exclui qualquer uma delas. Essa verdade move sua conversa a um nível diferente. Pessoas Sábias geralmente ensinam de uma forma dialética, pois conhecem a experiência interior, invariavelmente julgadas por imenso sofrimento, não por autoridades externas. Pense em Madre Teresa, Nelson Mandela, Mahatma Gandhi.

Paulo joga fora aparentes contradições ideológicas como carne e espírito, lei e liberdade, macho e fêmea, retendo ambos, não eliminando nenhum dos dois, até chegar à conciliação terceira, ou um ótimo e espaçoso lugar chamado de misericórdia ou graça, que resulta em uma "Nova Criação", (Gálatas 6:15). Mas a maioria tenta entender Paulo no nível dos binários iniciais que ele apresenta, interpretando um como totalmente bom e outro como totalmente ruim. Infelizmente é por isso que muitas pessoas não gostam de Paulo.

Cynthia Bourgeault. Professora do Center for Action and Contemplation, explica a nuance da Terceira Força:
A interação de duas polaridades suscita uma terceira, que é a "mediação" ou princípio "reconciliador" entre elas. Em contraste com um sistema binário, que encontra estabilidade no equilíbrio dos opostos, o sistema ternário estipula uma terceira força que emerge como a mediação necessária desses opostos e que, por sua vez (e este é o ponto realmente crucial) gera uma síntese em um nível totalmente novo. É uma dialética cuja resolução cria simultaneamente um novo reino de possibilidades.
[Por exemplo] como disse Jesus: "a menos que [a semente] caia na terra e morra, [ela] continuará a ser uma única semente" (João 12:24). Se esta semente cai no chão, ela entra em um processo sagrado de transformação. Veja, a primeira força, o chão "afirma", a segunda força, "nega" (O terreno tem que ser úmido, a água sendo seu primeiro componente mais crítico). Mas, mesmo neste encontro, nada acontecerá até a luz solar, a terceira força ou "reconciliação", entrar na equação. Em seguida, as três forças que geram o broto, realizam a possibilidade latente na semente, e, surge um novo "campo" conjunto de possibilidades.

Bourgeault vê a terceira força na ação de Jesus ante à situação da mulher apanhada em adultério. Quando apresentada com as polaridades de libertação ou apedrejamento da mulher, Jesus diz: "Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que atire a pedra" (João 8:7). Escreve ela: "Ele acha a coisa que transforma os dois terríveis binários em um completamente novo relacionamento, e cria um novo reino... chamado de compaixão, perdão. Continua:

A manifestação do amor está na situação, mas você precisa encontrá-la... A terceira força está lá porque a Trindade é real, e, se você estiver alerta, será capaz de encontrá-la... O problema é que a maior parte do mundo é cego para a terceira força... A capacidade de gerar a terceira força ou a santa reconciliação é para mim o mais poderoso fruto de uma prática espiritual contemplativa. Sem uma prática contemplativa, enxergar a terceira força é praticamente impossível... mas com uma prática espiritual, você será melhor e bem mais equipado para entrar na dança e permitir apresentar a terceira força em qualquer situação.

Texto de Richard Rohr's.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

POR QUE CRISTÃOS/CRISTÃS FUNDAMENTALISTAS TERIAM ODIADO JESUS?

Mesmo que professem espalhar sua palavra, os fundamentalistas esquecem a mais importante mensagem de Jesus.

Jesus nunca poderia ter sido um pastor de uma igreja evangélica fundamentalista contemporânea, nem um conservador bispo católico romano. Fundamentalistas evangélicos ou católicos prosperam distinguindo sua "verdade" das falhas de outras pessoas. Jesus, ao contrário, mostrava diferença explodindo bombas de empatia.

Essa bomba explode cada vez que um evangélico fundamentalista mostra que ama à frente do que a "Bíblia diz". Ela explode cada vez que o Papa Francisco coloca a inclusão à frente do dogma. Explode cada vez que um casal LGBT é recebido em uma igreja. Explode sempre que um/uma ateu/ateia segue Jesus melhor que a maioria dos/das cristãos/cristãs.

Colocarei desta forma: Hoje, políticos fundamentalistas e conservadores cortam programas destinados a ajudar as populações mais vulneráveis, criando um mito de estarem protegendo a família tradicional.

Hoje, muitos evangélicos estão do lado dos fariseus, atacando os pobres "menor destes", em nome de dizer está seguindo a Bíblia.

Então, quem está seguindo Jesus?

Confrontados com o culto à Bíblia, chamado de evangelicalismo, temos uma escolha: seguir Jesus ou seguir o culto ao livro. Se Jesus é Deus, como evangélicos e católicos afirmam que é, então, a escolha é nítida. Temos de ler o livro, incluindo o Novo Testamento, como Ele fez. Mas, Ele parece não ter gostado muito da "Bíblia" de seus dias.

Confrontando bispos que protegem os dogmas e tradições, o Papa Francisco parece escolher abraçar a empatia pelo "outro", nós temos a escolha: Seguir Jesus ou proteger a instituição.

Toda vez que Jesus mencionou o equivalente a uma tradição da Bíblia, a Torá, qualificou-a como: "As escrituras dizem assim e assim, mas eu digo..." Jesus minou as escrituras e a tradição religiosa em favor da empatia. Toda vez que minava as escrituras ("tradições religiosa" judias), foi para se posicionar ao lado do amor, co-sofrimento. Cada vez que um evangélico se torna um ateu em favor da empatia, ele se aproxima de Jesus. Cada vez que conservadores católicos tentam impedir o Papa de proporcionar mudanças na igreja, estão do lado daqueles que mataram Jesus.

Um leproso veio a Jesus e disse: "Senhor, se quiseres, pode limpar-me". Se Jesus tivesse sido um bom religioso judeu, tinha dito: "Seja curado", e, se afastado. Em vez disso, Ele estendeu a mão e tocou o leproso, dizendo: "Eu quero. Torna-te limpo", mesmo sabendo que quebrava específicas leis de Levíticos. O capítulo treze nos ensina que quem tocar em uma pessoa com lepra está contaminado. Em termos fundamentalistas católicos ou evangélicos, Jesus era um humanista que quebrava regras, e, que, portanto, não foi "salvo". Um fundamentalista se recusaria dar o sacramento a Jesus. Com certeza muitos fundamentalistas pediriam seu afastamento, chamando-o de traidor da causa do cristianismo.

A mensagem da vida de Jesus é uma intervenção e uma evolução do amor. Considere a história do livro de Mateus: Uma mulher que tinha uma hemorragia há 12 anos, vem por trás de Jesus e toca a borda de seu manto. Ela diz a si mesma: "Se eu tão somente tocar seu manto, ficarei curada". Jesus volta-se e a vê. "Coragem filha", disse Ele, "a tua fé te salvou". E a mulher foi curada naquele momento.

Jesus reconheceu como sinal de fé, uma mulher lhe tocar com hemorragia. Elogiando-a, em vez de repreendê-la. Ele ignorou as regras de sua Escritura: "Se uma mulher tiver fluxos de sangue por muitos dias fora do tempo de sua separação (período menstrual), ou se ela tem uma descarga por mais tempo de sua separação, todos os dias depois de seu fluxo permanecerá imunda... Toda cama que ela se deitar durante todos os dias do seu fluxo, deve ser tratada como imunda... e toda coisa, sobre que se assentar, será imunda... E qualquer que a tocar, será imundo". (Levítico 15:25-27).

No primeiro século Jesus foi além de acolher leprosos e tocar em uma mulher com fluxo sanguíneo. Abraçou uma mulher de uma tribo e cultura rival, isso, era dificultoso tanto para o povo que Jesus pertencia quanto para o povo que a mulher pertencia. Sua atitude para com o/a "outro/outra" era tão incompreensível, que seus seguidores ficavam maravilhados. Mesmo a mulher samaritana do poço, sabia que sua ação era chocante. Quando Jesus parou para conversar com ela, ela disse: "Você é judeu e eu sou uma mulher samaritana. Como pode me pedir água? (Porque os judeus não se comunicavam com os samaritanos)" (João 4:9). Jesus respondeu atacando a preeminência da religião, tradição, dogma e identidade de grupo, oferecendo uma maneira inteiramente nova de olhar para espiritualidade, enfatizando a dignidade humana básica, acima da nação, estado, gênero ou religião:
"Mulher", respondeu Jesus: "crê-me que a hora vem, que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorareis o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adoraram ao Pai em espírito e verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem" (João 4:19-24).
"A adoração em espírito e verdade", não se trata de um livro, e muito menos de uma "salvação" através de ideias ou tradições corretas. Você acha que as pessoas que chamam Jesus de "Filho de Deus", também rejeitam a veneração do livro a que estão presos ou aos dogmas da igreja que crucificam novamente Jesus a cada vez que uma pessoa LGBT ou um casal divorciado são recusados nos sacramentos? Evangélicos fundamentalistas lutam para conformar Jesus a um livro, e não o contrário. Os bispos conservadores se alinham com a ala neoconservadora de sua igreja, não só contra o Papa Francisco, mas, contra a lógica emancipatória da bomba de empatia de Jesus.

Se Jesus não é o que está na "lente" dos fundamentalistas evangélicos ou católicos romanos que leem a Bíblia e seguem suas tradições, podemos afirmar que eles realmente acreditam que Jesus é o Filho de Deus?

Este artigo é completamente extraído do Livro: "Why I am an Atheist Who Believes in God: How to give love, create beauty and find peace" de Frank Schaeffer.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

EQUIDADE NO AMOR DE DEUS



Primeiramente, deve-se enfaticamente dizer que todos/todas os/as cristãos/cristãs devem ser pessoas amorosas, pessoas que gostam, que demonstram amor, exalam amor, despertam amor, que se comunicam com amor e que se sacrificam por amor. Por quê? Porque Deus é amor, e nós, só podemos amar a Ele, porque Ele primeiro nos amou (1 João 4:18-19), amou, e se entregou por nós na cruz.

Temos todos os motivos para amar os seres humanos, para gastar nosso tempo e energia com eles, afim de que possam ver nossas boas obras e glorifiquem a nosso Pai que está nos céus. É o mínimo que podemos fazer, dado o incrível amor demonstrado à nós, miseráveis pecadores que éramos. De fato, "Mas Deus prova seu próprio amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (Romanos 5:8). As pessoas saberão que somos discípulos de Cristo pelo amor que demonstramos uns aos outros (João 13:35). Infelizmente, não conseguimos imitar o amor de nosso Salvador, e, repetidamente caímos no pecado do não-amar. Que Deus nos dê a graça de superar os preconceitos e autojustiça que nos rouba o amor cristão pelos outros.
Às vezes um clichê pode ser tomado como revelação divina
Um proverbio popular religioso pode ganhar ascendência e, se tornar dogmático mesmo sem apoio bíblico. "Deus ajuda a quem se ajuda", não é encontrado nas Escrituras, por exemplo, mas é um bom exemplo de valor brasileiro. (Spurgeon devia ter razão quando disse que biblicamente o ditado devia ser "Deus ajuda aqueles que não podem ajudar a si mesmos"). O mesmo deve ser dito da noção de que os cristãos devem amar a todos e todas igualmente, sem distinção.
Amor sem Distinção?
Como Deus, em qualquer sentido, os/as cristãos/cristãs devem amar as pessoas em geral, mas, ter ciência, que existem distinções de amor que não são pecaminosas e, realmente refletem o caráter e comportamento do próprio Deus. Devemos amar nossos inimigos e perseguidores, como Jesus disse (Mateus 5:43-48), e, mostrar bondade para com todas as pessoas (É só recordar a História do Bom Samaritano), mas, não é a mesma maneira que amamos e tratamos nossos cônjuges, filhos, igreja entre outras. Há círculos concêntricos que, naturalmente, com razão regem nosso amor. Por exemplo, o amor que tenho por meu ou minha cônjuge é espelhado no amor de Cristo por sua igreja (Efésios 5:25). Cristo ama sua igreja de uma forma diferente, mais íntima e intensamente.

Eles e elas (membros da igreja), afinal, são Suas ovelhas e, Ele as conhece intimamente de uma forma que lobos e mercenários não conhecem (João 10:11-16). Ele deu a vida por sua igreja (Efésios 5:25, João 10:15), e, não há nenhum amor maior que esse (João 15:13). Da mesma forma devemos amar a Cristo, nossos cônjuges, irmãos e irmãs em Cristo de uma forma especial. Mas, será se não estamos discriminando algumas pessoas, por amar os mais próximos e próximas como Cristo fez? Devemos amar todas as pessoas, fazer o bem a todas as pessoas, mas não tão indistintamente? Paulo escreveu a igreja da Galácia para fazer o bem a todas as pessoas, especialmente as da igreja (Gálatas 6:10).
Estabelecendo Distinções

Portanto, estabelecemos distinções, não com base em raça, gênero, religiosidade, identidade sexual, entre outras, (abolida em Gálatas 3:8). Mas, distinções adequadas com base de proximidade, assim com Cristo fez. Antoine de Saint-Exupéry já dizia que nos tornamos eternamente responsáveis por tudo aquilo que cativamos, ou seja, devemos amar a todas as pessoas indistintamente, mas de uma forma diferente os que pertencem a nossos ciclos mais próximos (Aqueles que cativamos: Deus, família, igreja, etc.), o que é natural no ser humano. É natural e bíblico. Uma pessoa que é boa para com os outros, mas, que negligência seus filhos e filhas, é pior que uma pessoa que é boa para seus filhos e filhas e negligência os outros. Por quê? Deus lhe deu obrigações para com seus filhos e filhas, que é maior que todas outras relações. Em outras palavras, nosso amor pelos outros é antenado pelo grau de obrigação moral que temos para com eles/elas. O próprio Deus amou Israel de uma maneira especial, sobre todas as nações da terra.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

VENDO COM OS OLHOS DE DEUS


São João da Cruz diz de várias maneiras, ao longo de seus escritos, que Deus se recusa a ser conhecido da mesma maneira que conhecemos todos as outras coisas; Deus só pode ser conhecido pelo seu amor a Ele. Gosto de chamar isso de "centro do centro", ou "um assunto para" se conhecer onde nem o participante é sempre objetivado. No entanto, grande parte da religião tentou conhecer a Deus teologicamente, por palavras, teorias, doutrinas e dogmas. Os sistemas de crença têm seu lugar; eles fornecem um ponto de partida necessário e estruturado, assim como a mente dualista é boa na medida em que anda. Mas, você precisa de uma mente não-dual ou mística para amar e experimentar coisas comuns limitadas e, espreitar através da nuvem, para vislumbrar coisas infinitas e aparentemente invisíveis. Essa é a mente contemplativa que pode "conhecer as coisas espirituais de uma forma espiritual" (1 Coríntios 2:13), como diz Paulo.

O que significa quando Jesus diz que você deve amar a Deus com todo teu coração, com toda tua alma, com toda tua mente (e não apenas sua mente dualista), com toda tua força? O que significa a instrução do primeiro mandamento de amar a Deus mais do que qualquer outra coisa? A única forma que conheço de amar a Deus, é amar o que Ele ama. Amar a Deus, significa amar a tudo ...sem exceções. É certo que isso só pode ser feito com o amor divino que flui através de nós. E só podemos permitir que o amor flua por nosso meio, com uma consciência não-dualista, contemplativa, onde paramos de eliminar e escolher. Essa é a mente transformada (Romanos 12:2) que nos permite ver Deus em tudo, e onde pode habilitar naturalmente, a mudança de nosso comportamento.

Religião, da raiz religio, significa ligar novamente, voltar a unir. Descreveria esses eventos como aqueles que superam as lacunas entre você e as outras pessoas, eventos e objetos, e, até mesmo Deus. O trabalho da espiritualidade é olhar com um par de olhos diferentes (olhos não-dual), além do que Merton chama de "sombra e disfarce", e, ir até onde você possa ver em sua conexão e plenitude. Em um sentido muito real, a palavra de Deus é apenas um sinônimo para tudo isso. Então, se você não quer se envolver com tudo, fique longe de Deus.

Texto de Richard Rohr's

quarta-feira, 27 de julho de 2016

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA CRISTÃ

Ficamos horrorizados ao ver a quantidade de pessoas cristãos que estão sendo barbaramente assassinadas em países islâmicos. Porque tanta intolerância? Porque tantas pessoas cristãos têm morrido? Nos vem a pergunta, e nós cristãos somos esvaziados dessa coisa chamada intolerância?
Nações, facções, grupos políticos e até mesmo famílias entram em guerra uns com os outros para satisfazerem sua ganância, orgulho e ciúmes. Permitem soltar a raiva na esperança do poder. Nos conflitos religiosos há pouca diferença; há, de certo, uma pitada extra de martírio e uma sensação de recompensa divina que as empurram para frente. Mas há um preço. Estes conflitos causam deterioração nas almas e mentes das pessoas. Os/as participantes não pensam nas consequências de humilhar, maltratar e até mesmo tirar a vida de outra pessoa, lutam como se não tivessem nada a perder. É exatamente neste momento que começa a perca da moral e dos valores. São incapazes de ver seus inimigos como humanos, só os enxergam como pagãos infiéis e a encarnação de um mal que deve ser derrotado. Fanáticos, não dão aos outros o respeito e a dignidade condizente a um ser humano.

É a falta de tolerância que causou e causa os conflitos religiosos. Fanáticos são incapazes de aceitar que outros disputem as pessoas para adicioná-las a seus rebanhos. Isto certamente é verdade nos últimos anos aqui no Brasil. Os fundamentalistas se reúnem contra grupos sociais, com a desculpa de que Deus abomina tal comportamento. Como resultado, o conflito baseado na religião tem severamente prejudicado o andar de nossa sociedade, e, a única maneira de corrigir tudo isso é através do desenvolvimento da tolerância.

O que realmente está sendo danificado em nossa sociedade é a relação do cristianismo com outras religiões e outras populações. Infelizmente, a comunidade LGBT, Negra, Feministas e, principalmente as religiões de matrizes africanas estão se fechando para o diálogo por culpa do cristianismo fundamentalista.

O pior, é ver esses preconceitos chegarem às escolas. Crianças de matrizes africanas estão sendo chamadas de "adoradores do diabo", crianças LGBT de "viado", "sapatão". No campo da Educação Física as crianças sentem-se encurraladas o tempo todo. Nossa sociedade será verdadeiramente danificada se as crianças forem discriminadas por sua orientação sexual, raça, identidade de gênero e/ou religião.

Mas como podemos reparar os problemas de nossa sociedade?

Simplesmente a resposta é tolerância. Jesus pregou que não devemos julgar os/as outros/as, mas amá-los/las. Ele pregou a tolerância.
O profeta Maomé disse: "Você tem duas qualidades que Deus, o Excelso, gosta e ama. Uma delas é a brandura e a outra a tolerância" (Riade us-Saliheen, vol. 1, p.632). Muhammad estava dizendo que nossa capacidade de tolerar é um dom de Deus para nós, e, Deus quer que sejamos tolerantes uns/umas com os/as outros/outras, essa é a nossa melhor característica.
Cecília Huang, do Templo Zu Lai, de São Paulo afirma: "O importante não é a religião em si, mas sim o que ela influencia nas pessoas. Portanto somos ensinados a respeitar qualquer outra religião. Devemos lembrar que qualquer um tem a sua liberdade de escolher um culto".
A Iyalorixá Dora Barreto, do terreiro Ilê Axé T'Ojú Labá, diz: "O candomblé tem por princípio o acolhimento, receber bem, dar um rumo para as pessoas, esclarecer. Tenho grandes amigos de outras religiões. Com a tolerância, ganhamos a união. Todos ficam fortes. O ideal seria que se tivesse problema na minha casa, fosse conversar com um pastor ou com um padre para saber a opinião deles. Ouvindo a opinião de outras religiões, consegue-se fazer um melhor juízo".
Não há nenhuma razão para odiar alguém por ser quem é. Você pode até não gostar de uma pessoa, ou de sua personalidade, o que é, pelo menos mais razoável do que odiar alguém por causa de sua religião, ideologia, raça, orientação sexual ou identidade de gênero; pois essa pessoa está sendo julgada por suas ações originais, e não pelo que elas são. Embora muito melhor seja não odiar a pessoa em tudo. Olhe o que Martin Luther King disse em seu discurso "I Have a Dream". Ele disse que esperava que um dia seus filhos fossem julgados "pelo conteúdo de seu caráter". Nós também devemos julgar as pessoas "pelo conteúdo de seu caráter", se quisermos verdadeiramente ter paz com todos e todas. Temos de ser capazes de olhar para uma pessoa e ver o lado bom, bem como o mau, a fim de discernir o que essa pessoa verdadeiramente é. Há um dito muçulmano que diz: "Toda criação é a família de Deus, e a pessoa mais amada por Deus (é aquela) que é amável e gentil para com sua família". Temos de ser capazes de ver que a pessoa que odeio também é, esse vínculo humano comum que nos faz família, e por isso temos de ser capazes de perdoar e tolerar as outras pessoas.

No final, não devemos nos tornar o juiz da humanidade, devemos tolerar as outras pessoas apesar das diferenças. Somos todos seres humanos e todos temos falhas e grandezas dentro de nós mesmos. Não podemos, realmente ser o juiz de ninguém, pois todos nós temos diferentes mentes e pensamentos. Jesus diz: "Não julgueis segundo a aparência" (João 7:24). Isso é o que todas as pessoas devem fazer, não só por causa das pessoas que são discriminadas, mas para a reparação mais verdadeira da sociedade brasileira.